O moderno e o moderno

Para muitos, o Centenário do Modernismo brasileiro já foi comemorado em 2017, quando a Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti ocorreu de 12 dezembro de 1917 a 10 janeiro de 1918, na rua Libero Badaró, 111. Há uma corrente da história das artes brasileiras que assinala esse evento como um divisor de águas entre o que se praticava e o que seria a prática artística para o novo século; cabe à artista, portanto, o título de primeira artista moderna brasileira.

Por que a exposição de 28 pinturas, figuras e paisagens, onze gravuras, cinco aquarelas e nove caricaturas e desenhos é ainda considerada um marco? A primeira resposta poderia ser: foi uma mudança de paradigma. Será? Vamos trabalhar um pouco mais no tema e veremos aonde chegaremos.

Vale lembrar de que a individual de 1914 não deixou muitas boas lembranças na figura de Freitas Valle – mecenas que futuramente concederia uma bolsa do Pensionato Artístico de São Paulo, auxílio monetário que se destinava a artistas para que estudassem em outros países -, nem no tio Jorge Krug.

Como sabemos, depois de 1914, Anita Malfatti conseguiu o apoio monetário do Pensionato e deu continuidade aos seus estudos nos Estados Unidos, onde estudou com artistas como George Brant Bridgman, Dimitri Romanoffsky e Dodge na Arts Students League of New York.

Anita Malfatti deixa seus colegas de ateliê russos, franceses e norte-americanos, muitos dos quais artistas que contribuíram para as inovações artísticas daquele início do século XX, e retorna a São Paulo no ano das comemorações do Centenário do Ensino Artístico no Brasil, em 1916[1].

No entanto, a bagagem trazida dos Estados Unidos era pesada física (havia muitas telas, estudos e materiais) e metaforicamente (nova abordagem na forma de produzir as artes), de certa forma, desapontou os familiares e especialmente tio Jorge, que, aborrecido chegou a mencionar que aquilo não era arte! Esperavam a jovem artista uma pintura mais “amadurecida e suave” que as de 1914, e não trabalhos grotescos. Tio Jorge ficou bravo mesmo! Tendo empunhado sua aristocrática bengala contra alguns quadros.

Nem tudo estava muito bem, nem muito bom; mas realmente Babynha deveria encarar a realidade e ajudar o orçamento da família com aulas de pintura, mais enquadradas. Caso contrário….

O moderno Lobato e a moderna Anita

Depois da promoção do concurso de pintura sobre a lenda do saci, Monteiro Lobato entrou pessoalmente em contato com pintores e escultores para que dessem vida à sua ideia de criar a mitologia brasileira, sem anões, gnomos ou outros estrangeirismos contra os quais não cansava de posicionar-se. Essa posição conferiu ao tecnicamente fazendeiro paulista de Taubaté respeito por parte da nossa intelectualidade que também buscava uma identidade nacional. Mas o resultado do concurso não contou com a adesão de nomes de pesos.

A erudição afiada do autor de Urupês trouxe-lhe o prestígio de escrever para a Revista do Brasil (pertencente ao grupo que editava O Estado de S. Paulo, e que, mais tarde, seria comprada pelo próprio Monteiro Lobato), onde coordenava as edições que traçavam uma verdadeira cruzada contra o “plágio europeu” e retratava o verdadeiro brasileiro do campo, o caipira, distante a idealização de Euclides da Cunha e tampouco parecido com o bom selvagem rousseauniano.

Esses conceitos reforçavam a ideia de que, no começo do século XX, a literatura brasileira estava estagnada. É importante que entendamos os movimentos anteriores à Semana de Arte Moderna de 1922, como elucida Miceli (2001)[2] ao afirmar que esse período foi propício à profissionalização do trabalho intelectual brasileiro, sendo a Revista o veículo para disseminar essa tendência. Outra publicação que contava com a colaboração de Monteiro Lobato era o periódico O Estado de S. Paulo. Lá, ele escreveu 45 artigos entre os anos de 1913 e 1923.

Não era com ceticismo que Monteiro Lobato via a o jornalismo, para o escritor, uma literatura engajada passava pelo que se vivenciava nas cidades e no país. Então a influência da pena lobatina influenciava muitas tendências. E assim aconteceu com sua crítica à exposição de Anita Malfatti. É bem verdade que o acervo da exposição causou espécime entre os próprios familiares de Babynha, incomodou as pessoas do ciclo de amizade. Porém, não agradou em nada Nestor Pestana, diretor de O Estado de S. Paulo, que encomendou a Monteiro Lobato a crítica.

E foi este quem encomendou a Lobato a crítica. Ao que foi relatado em depoimento a Paulo Duarte, Nestor Pestana, amigo pessoal da família de Anita, depositava nela grande expectativa. Contudo, frustrado com o que vira na exposição, em virtude de seu extremo conservadorismo, teria confiado ao articulista Monteiro Lobato, a crítica em tom de “pito”, aproveitando-se do fato de Monteiro Lobato, apesar de jovem, ser “velho de sensibilidade” Foi o casamento perfeito entre o desgosto de Pestana e a hostilidade de Lobato às estéticas modernas.[3]

Em sua crítica A propósito da exposição Malfatti[4], de 20 de dezembro de 1917, Lobato consegue trazer aos leitores de O Estado de S. Paulo sua visão do que é ser moderno e esse sentido não empresta qualquer conceito para os trabalhos de artistas, que segundo ele, defendem-se atrás do escudo Modernismo. Defendem-se das verdadeiras críticas que veem nas suas obras apenas algo digno de pinturas de hospícios (Ele não conheceu Nise da Silveira e se a conhecesse não reconheceria sua intervenção no tratamento da esquizofrenia).

Embora elles se dêem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho de que a arte anormal ou teratologica: nasceu com a paranóia e com a mystificação. De ha muito já que a estudam os psychiatras em seus tratados, documentando-se nos innumerosos desenhos que ornam as paredes internas dos manicomios. A unica differença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, producto ilogico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psychoses; e fóra delles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não ha sinceridade nenhuma, nem nenhuma logica, sendo mystificação pura.[5]

Embora nutrisse profunda simpatia pelo formoso talento da pintora, Lobato arrematou suas impressões ao dizer que a série de considerações desagradáveis foram necessárias para que Anita Malfatti encontrasse o rumo certo para o seu talento.

Podemos inferir que o homem identificado com o progresso e a modernidade via como embuste a forma como Anita Malfatti via e se expressava na modernidade. Tornando-se hegemônica por certo tempo, a visão lobatina acerca das manifestações modernistas trouxe consequências para a carreira da pintora. Para Vale[6] estava aí a divergência entre a modernidade de Lobato e a dos modernistas: a forma de expressão.

As consequências da crítica foram um longo período de reclusão, perdas de alguns alunos e até mesmo uma depressão enfrentada pela artista. No entanto, após esse primeiro solavanco, Anita, um ano depois, voltou a ter aulas sobre natureza-morta, quando conhece Tarsila do Amaral, que junto outros amigos modernistas: Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, Anita participou da Semana de Arte Moderna de 1922.


[1] VER – Anita Mafalti. Disponível em: http://ver-anitamalfatti.ieb.usp.br/1911-1920/. Acesso em 10 fev. 2021.

[2] MICELI, Sergio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[3] VALE, Lúcia de Fátima. A Propósito da Exposição Malfatti, Edição Revisitada. Disponível em: http://www.urutagua.uem.br/007/07vale.htm#_ftn3. Acesso em: 10 fev. 2021.

[4] Esta crítica não está entre os 45 artigos, pois fora publicada na edição vespertina do periódico.

[5] Mantive a grafia da época.

[6] A Propósito da Exposição Malfatti, Edição Revisitada op. cit.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s