Mães e filhos

Às vezes, pais desapontados com alguns comportamentos filiais interrogam-se ainda que surdamente: “Onde eu terei errado? Por quê?” Mas o amor materno tudo contempla, assente, perdoa.

Penso em D. Maria Luísa de Almeida Leite Moraes de Andrade e em D. Inês Henriqueta de Sousa Andrade, mães de Mário Raul e José Oswald, criados nos mais piedosos preceitos da Igreja Católica e, que mais tarde, tornar-se-iam a dupla iconoclasta do passadismo artístico-cultural da São Paulo du fin de siècle.

Mário de Raul de Moraes Andrade, o segundo filho vivo de D. Maria Luísa e Sr. Carlos Augusto, teve uma infância cercada pelos familiares, com cuja frequência à casa no largo do Paissandu era constante e, por consequência, imprimiu no jovem Mário o apreço pela fé católica, presente desde sua primeira formação escolar no Ginásio Nossa Senhora do Carmo e mais tarde nos Irmãos Maristas, tornando-se, como seu irmão mais velho, congregado da Imaculada Conceição da igreja de Santa Ifigênia.

A obediência à Igreja em nada o diminuía. Gonçalves (2012) relata que já moço, 23 anos, “escreveu um pedido de autorização ao vigário-geral do Arcebispado de São Paulo para ler os livros interditados pelo Índex do Santo Ofício”. As obras incluídas eram de Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, do poeta alemão Johann Heinrich Heine[1] e do dramaturgo, poeta e ensaísta belga de língua francesa, o Nobel de literatura Maurice Maeterlinck[2]. Esse comportamento elegante do autor ficou evidente no episódio ocorrido em 1921, quando o genuíno artista Vicente de Carvalho – como Mário o considerava – lhe negara qualquer comentário sobre os versos a ele enviado, em carta registrada. Aludiu ao episódio, apenas anos mais tarde.

Após a morte do pai, em 1917, Mário, que a ele era muito ligado e por isso sofreu horrivelmente. No entanto, a perda do pai pareceu não lhe ter destroçado como a do irmão Renato, quatro anos antes, que o submergira em uma forte depressão. Uma semana após o falecimento do pai, lá estava Mário no Círculo de Conferência proferido por Alfredo Pujol sobre o Bruxo do Cosme Velho. Embora não se tratasse de festejo, o evento quebrava o nojo necessário para respeitar o morto. Todavia a obstinação pelas palestras escandalizou os familiares; D. Maria Luísa, que, de acordo com relato do autor, “aceitou tudo silenciosa”. Pelo menos era assim que ele imaginava, pelo comportamento silente da mãe… O amor de mãe tudo perdoa.

Retrato de Mário de Andrade, 1927 , Lasar Segall. Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Será que o remorso o levara a tornar-se noviço na da Venerável Ordem Terceira do Carmo?

Oswald da mamãe[3]

Assim como Mário, Oswald de Andrade também era muito querido por sua mãe, D. Inês Henriqueta de Sousa Andrade, cuja devoção católica a fazia ter em casa um oratório com santos para todas as ocasiões e estendia essa devoção ao filho amado: Nonê, jovem católico praticante, assíduo anjinho de procissões e habitual romeiro devoto de Nossa Senhora Aparecida e de Bom Jesus do Pirapora. Dá para imaginar?

Essa atmosfera totêmica, como relata o próprio modernista, envolvia-o em casa, nas escolas (estudo no Ginásio Nossa Senho do Carmo, depois transferiu-se para o São Bento), na vida pública, pelo menos até a fase juvenil e, mais tarde, ao morrer, em 1954, “com a imagem de Nossa Senhora Aparecida na mão” (GONÇALVES, 2012, p. 137).

Desde cedo, o pirralho de D. Inês e do Sr. José Oswald Nogueira de Andrade já escrevia, com seus amigos, para o jornal Minarete de Pindamonhangaba (1903 – 1908). Em seguida, com o apoio paterno, começou como repórter e crítico teatral em o Diário Popular.

A vida seguia…. O rapaz ingressou, como muitos do seu estrato social, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, e, com ajuda financeira da família, fundou O Pirralho, uma revista semanal com propósito de fazer oposição ao recém-eleito presidente da República Hermes da Fonseca, mas com viés cultural também. O sucesso do semanário era celebrado e a vida seguia….

Quis o rapaz viajar para Europa e, exatos 10 anos antes da Semana de Arte Moderna, zarpava Oswald a bordo do Martha Washington rumo à Itália, com dois clandestinos amigos seus. Decaía o anjinho?

Mal sabia ele que os abraços e afagos maternos não mais seriam sentidos; não mais as afinidades seriam trocadas pessoalmente…

No velho mundo, um novo Oswald surgia: intermináveis noitadas, rumorosos envolvimentos amorosos, deslumbramentos com o vanguardismo europeu, exposições e champagne… interrompidos pela notícia de que sua mãe, muito doente, aguardava-o, em São Paulo.

Retrato de Oswald de Andrade (Tarsila do Amaral)

O navio que o trouxera de volta foi o Oceania. E a vida seguiu permeada de sentimento órfico.


[1] Der tod

A Morte é a gélida noite,

A Vida o dia opressivo.

Escurece, tenho sono,

O dia cansou-me muito.

Onde me deito há uma árvore

Em que canta um rouxinol.

Só canta de puro amor.

Até em sonhos o escuto.

[2] “O Prêmio Nobel de Literatura de 1911 foi concedido ao Conde Maurice (Mooris) Polidore Marie Bernhard Maeterlinck “em reconhecimento por suas atividades literárias multifacetadas, e especialmente por suas obras dramáticas, que se distinguem por uma riqueza de imaginação e por uma fantasia poética, que revela, por vezes sob a forma de conto de fadas, uma inspiração profunda, enquanto de forma misteriosa apelam aos próprios sentimentos dos leitores e estimulam a sua imaginação”.

MLA style: The Nobel Prize in Literature 1911. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2021. Mon. 22 Feb 2021. <https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1911/summary/&gt;

[3] Este é o título do capítulo 10, de 1922 – a semana que não terminou, que Marcos Augusto Gonçalves dedica a Nonê.

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